Animais Domésticos

«Misunderstand me correctly.» (Sibelius) | setadespedida@yahoo.co.uk

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Coisas fechadas


Se deixarmos a única chave de alguma coisa lá dentro, para entrar, será necessário arrombar a porta, provavelmente acordar os vizinhos e martelar pelo menos até às duas da manhã.


Animais selvagens, animais domésticos

Passaporte de Virginia Woolf, 1923


1924, um ano antes da publicação de Mrs. Dalloway



Capa de Vanessa Bell para a primeira edição (Hogarth Press, 1929)


Única gravação conhecida da voz de Virginia Woolf. Transmissão radiofónica da BBC de 29 de Abril de 1937. O texto, transcrito aqui, foi posteriormente publicado no livro The Death of the Moth and Other Essays (1942).


segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Sherlock Holmes e a leitura


É preciso reconhecer, ainda que com alguma pena, que o livro de memórias de Arthur Conan Doyle não é de leitura entusiasmante.
A dada altura, no entanto, o autor diz uma coisa interessante quando explica como escrevia as histórias de Sherlock Holmes:


«People have often asked me whether I knew the end of a Holmes story before I started it. Of course I did. One cannot possibly steer a course if one didn't know one's destination. The first thing is to get your idea. Having got that idea one's next task is to conceal it and lay emphasis upon everything which can make for a different explanation. Holmes, however, can see all the fallacies of the alternatives, and arrives more or less dramatically at the true solution by steps which he can describe and justify.»

Memories and Adventures, Sir Arthur Conan Doyle, Wordsworth, pp. 90-91


Por surpreendente que isto seja num autor de histórias de detectives, Conan Doyle propõe aqui noções de texto e de leitura simetricamente opostas às daqueles que defendem que um texto literário contém informação e que ler consiste em extraí-la.
Para o criador de Sherlock Holmes, escrever é só uma manobra de diversão: «Having got that idea one's next task is to conceal it and lay emphasis upon everything which can make for a different explanation.» O texto, em vez de fornecer informação importante, contém elementos desprovidos de significado e de carácter decisivo para a compreensão da narrativa e a resolução do crime. Ler não é extrair nem decifrar informação. É só ser distraído.


The certainty of chance


Escolho o modo aleatório para ser surpreendida, mas o meu MP3 demonstra uma certa tendência para seleccionar repetidamente faixas de artistas que acabei de ouvir muitas vezes.
Por que princípios se rege o acaso?
Quotidianamente, as coisas funcionam como o modo aleatório do MP3. Num dia em que alguma coisa corre mal, outras pequenas ou grandes catástrofes ocorrerão. Numa semana desprovida de acontecimentos, nada será capaz de perturbar a monotonia. Embora raras, as notícias boas chegarão sempre ao mesmo tempo, sendo geralmente mutuamente exclusivas e exigindo opções.
O acaso segue um programa implacável. We need to live in a state of suspended animation, like a work of art.


segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

Agosto 2009











«It's nothing to do with my feelings about anything. I know that, as a general principle, I avoid myself. And then, you find that you've met yourself because you go around and around.»

A. S. Byatt


sexta-feira, 17 de Julho de 2009

O cinema italiano e eu

Eu costumava embirrar um bocado com Fellini, mas este ano já vi três filmes maravilhosos deste realizador: Os Inúteis, Palhaços e Roma.
Em Roma, em particular, é interessante constatar como o riso pode conviver com algumas das sequências simultaneamente mais tenebrosas e mais belas que já vi em cinema: o trânsito nos acessos a Roma, a construção dos túneis de metro com a descoberta dos frescos, as cenas nos bordéis, a sequência do desfile de moda eclesiástica.
Ao contrário do que julgava, Fellini é tudo menos decorativo. Há poucos realizadores com filmes em que a morte e a vida estejam tão bem entrelaçados.


Deceive inveigle obfuscate

O Michael Jackson que mais me interessa continua a ser o dos Jackson Five.
Há ali alguém a quem explicaram que só mereceria amor se fizesse o que lhe dissessem.
Este Michael Jackson ainda não descobriu que para os que são incapazes de amor incondicional mesmo o amor condicional é improvável. Os gestos e movimentos executando cuidadosamente coreografias e instruções denunciam a vontade absurda de lutar por esse amor mal prometido. Mesmo mascarado, este menino tudo faz para agradar.
O Michael Jackson que vem a seguir é muito mais cínico e desencantado. Parece desprovido de centro.


quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Coisas fechadas

Numa entrevista que passou na terça-feira à noite no programa Bairro Alto, Siri Hustvedt contou a dada altura que, arrumando as coisas do pai morto, descobriu um molho de chaves identificadas com a etiqueta «Unknown Keys». Chaves que já não abrirão mais nada, chaves de coisas que continuarão para sempre fechadas.
A mala de B. continuava fechada com um cadeado, mas, lá dentro, ele encontrou um papelinho informando que as coisas dele tinha sido revistadas.



Work in progress

David

No Alphaville, de Godard, Anna Karina lê Paul Éluard.

No filme Splendor in the Grass, de Elia Kazan, são lidos alguns versos do poema de Wordsworth Ode on Intimations of Immortality») que inspira o próprio título do filme. (Por sua vez, o filme inspirou um poema de Ruy Belo.)

No fim do filme In her shoes (Na sua Pele), de Curtis Hanson, Cameron Diaz lê o poema «One art», de Elizabeth Bishop. (A personagem é disléxica e conseguir ler este poema é uma grande vitória para ela.)

No filme Seven, de David Fincher, os detectives chegam ao assassino através de uma lista de pessoas que requisitaram certos livros nas bibliotecas. Se não me engano, um desses livros é a Divina Comédia, de Dante.

Neste caso, não é um poema, mas um romance que tem um papel importante no enredo de um filme (conta comigo para ignorar as regras): em A Teoria da Conspiração, de Richard Donner, o protagonista, já não sei bem porquê, é totalmente obcecado pelo livro The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, de que passa a vida a comprar novos exemplares.


quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Curtas de Verão

No Verão é melhor um livro grande



Ninguém me perguntou nada, mas tenho visto nas livrarias a tradução portuguesa do Oscar and Lucinda, de Peter Carey (Dom Quixote), que li há pouco tempo, e recomendo vivamente. É um romance com dois protagonistas absolutamente singulares (que, por acaso, são ambos jogadores inveterados), e uma intriga cheia de aventuras e reviravoltas, entre as quais se destaca o transporte de uma igreja de vidro através da selva australiana.
[De momento, não vamos falar dos livros grandes que tenho na estante e ainda não li.]


Chás que pareceram boa ideia



A sugestão é não comprar.
(Há quem goste, no entanto.)



Máximas estivais

«He would deal with each problem as it came up or he would die.»
(Misery, Stephen King, p. 87)


The Pedant in the Kitchen



Para maior impacto hiperbólico, cito de um livro de receitas de sopas:
«A mais monótona das sopas pode ganhar nova vida se lhe forem acrescentados pequenos detalhes capazes de lhe conferir um toque de magia e um gostinho inesquecível.»

Em cada canja, uma folhinha de hortelã.


terça-feira, 16 de Junho de 2009

La chambre verte


Deste filme não posso esquecer:

- a noite passada por Julien Davenne no quarto verde, depois de recuperar o anel da mulher;
- o cemitério, a tarde em que Julien foi visitar a sepultura da mulher depois de o quarto verde arder (Davenne só se apercebeu de que era altura de regressar a casa de noite, depois de o cemitério fechar, quando já era impossível sair);
- a descoberta da capela dos mortos, nessa mesma noite;
- a primeira visita de Cecilia Mandel à capela dos mortos;
- os mortos de Truffaut/Davenne;
- a visita aos objectos que iam ser vendidos em leilão;
- a destruição do manequim da mulher morta.


Tenho a impressão de que os dois melhores filmes que vi no primeiro semestre de 2009 foram La Vie des Morts, de Arnaud Desplechin, e este La Chambre Verte, de François Truffaut, que passou ontem na Cinemateca.


domingo, 14 de Junho de 2009

Museu da luz


Não encontro na Internet uma imagem capaz de evocar o que se sente ao entrar nas salas onde está exposto algum trabalho de Dan Flavin, da colecção Panza, no Museu Berardo.
Já tinha visto peças de Dan Flavin noutros museus, mas entre obras de outros artistas, expostas como se fossem pinturas, partilhando o espaço que devia se ser só seu. Entrar nestas salas só de luz, estar lá dentro, é uma experiência quase transcendental.


terça-feira, 9 de Junho de 2009

Gallop apace, you fiery-footed steeds

Romeo and Juliet, Nature Theater of Oklahoma


A ideia de base era simples. Tinha a ver com Shakespeare: a companhia queria descobrir algumas das razões pelas quais Shakespeare ainda é recordado, estudado, representado e amado.
O ponto de partida foi a peça Romeu e Julieta, geralmente o primeiro texto do autor que se estuda na escola ou na faculdade. Foram feitos alguns telefonemas, em que se pediu ao interlocutor que tentasse resumir a intriga da peça, citar algumas passagens de que se lembrasse e explicar o significado de tudo isso para ele.

O texto da peça que esteve em cena no Maria Matos baseia-se, então, nas lembranças ou nas lacunas da memória em relação a esta peça de Shakespeare: personagens (da peça ou não) que se destacam, outras que quase se diluem, partes da história difíceis de recordar, interpretações estranhas do desenlace relacionadas com a morte de Anna Nicole Smith e o 11 de Setembro, memórias escolares, um filme com o Leonardo DiCaprio, vídeos do YouTube ou bocas que se mandam em chatrooms.
Falando com alguém sobre qualquer peça de Shakespeare, obteremos resultados semelhantes. Das peças ficam não exactamente as coisas que estudámos e discutimos na escola, mas os elementos com que nos identificamos mais, nos quais encontramos pontos de contacto com a nossa vida.

Para articularem estes monólogos coloquiais e cheios de hesitações, os actores adoptavam a postura e a dicção dos mais convictos actores shakespearianos. Às vezes também nós nos comportamos assim.


Animais selvagens, animais domésticos





The Problem Fox, de Alexander Sturm



terça-feira, 2 de Junho de 2009

A minha Feira do Livro deste ano



Na história da minha vida, 2009 ficará com certeza como o ano em que menos compras fiz na Feira do Livro.
Sem muito tempo livre no mês de Maio, só pude fazer duas visitas ao parque Eduardo Sétimo, ambas em dias pouco agradáveis.
Da primeira vez, no dia um de Maio, estava um calor insuportável e imensa gente: Lisboa em peso estava ali concentrada e penso até que vi ranchos folclóricos, trajados a rigor, com elementos empurrando carrinhos de bebé. Da segunda vez, começou a chover.

Talvez por tudo isto, não achei que a Feira estivesse melhor este ano.
Ainda hoje me pergunto onde estariam os tão publicitados novos equipamentos de restauração que a organização classificou como «diversificados».
Receio bem ser das poucas pessoas a quem a praça Leya não convenceu: será mesmo necessário ter sempre música aos berros para vender livros?
Julgar-se-ia que um dos traços distintivos do conceito de Feira do Livro deveria ser colocar à disposição das pessoas livros interessantes com descontos atractivos. Acho inacreditável que não haja informação organizada sobre os livros do dia propostos pelas várias editoras. Fiquei muito contente por encontrar e comprar a tradução de Paulo Farmhouse Alberto das Metamorfoses de Ovídio com 40% de desconto, mas isto aconteceu totalmente por acaso. Custará assim tanto pedir às editoras uma lista dos seus livros do dia antes do início da Feira e facultá-la aos interessados?
Para que é que a APEL tem um blogue se este não transmite a informação mais importante?


Os corpos que temos

Em princípio, cada ser humano tem uma cabeça com dois olhos, um nariz e uma boca, um tronco, dois braços, duas mãos com cinco dedos cada, duas pernas, dois pés também com cinco dedos, um esqueleto a suportar isto tudo.

No livro Mutantes, Armand Marie Leroi, professor de Biologia Evolucionista do Desenvolvimento no Imperial College de Londres, reflecte sobre o que está na base desta morfologia a partir de casos históricos desviantes e dos mitos que corpos assim provavelmente inspiraram: gémeos siameses, hermafroditas, ciclopes, albinos, anões, gigantes, sereias. As histórias de vida destas pessoas e daqueles que as estudaram funcionam como ponto de partida para explicar as razões de os nossos próprios corpos serem como são:
«Os morfogénios que atravessam o embrião em desenvolvimento fornecem às células uma espécie de grelha de coordenadas que lhes permitem descobrir onde se encontram e, por consequência, o que devem ser e fazer. Uma célula é, assim, bastante semelhante a um navegador que, atravessando os confins do oceano, trabalha com sextante e cronómetro para encontrar a longitude e a latitude do ponto onde se encontra a cada momento.» (pp. 106-107, trad. Jorge Lima)

O livro passou-me pelas mão por razões profissionais. À partida, não me lembraria sozinha de comprar um ensaio sobre este tema. Mas dei por mim perfeitamente deslumbrada com o que estava a ler: não só pelo interesse que a abordagem me suscitou, mas também devido à clareza com que o autor é capaz de explicar aos leigos mecanismos tão complexos.

Em Inglaterra o livro foi tão bem recebido que o Channel Four decidiu fazer uma série a partir dele, apresentada pelo próprio autor. Nós por cá é mais concursos, telenovelas e futebol. Valham-nos algumas editoras que ainda publicam ensaios assim.


sexta-feira, 22 de Maio de 2009

In Memoriam João Bénard da Costa

Estou triste. Vou sentir a falta de o ver passar pelos corredores da Cinemateca ou a aparecer, por vezes inesperadamente, no início de uma sessão, para dizer algumas palavras (a última vez que o vi foi no início do filme A Saga de Gösta Berling, numa tarde de um dia de semana em Dezembro do ano passado; despediu-se com um «Bom Natal»).
Comecei a apreciá-lo mais quando passei a viver em Lisboa e a ler com regularidade as folhas de sala da Cinemateca. Contudo, de uma coisa não tenho dúvidas: artigos e livros inteiros poderão ter sido escritos sobre alguns filmes, mas quando lemos as duas ou três páginas que Bénard escreveu sobre o mesmo tema, estas são quase sempre mais inspiradoras, qualidade bastante rara nos dias que correm.


quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Não se vive mal em Lisboa nestes dias

O meu Indie Lisboa começou no dia 24 de Maio com o excelente Waiting for Sancho, de Mark Peranson, uma espécie de making-of poético do filme O Canto dos Pássaros, em que Albert Serra, por vezes à espera não só de Sancho mas também do nevoeiro, explica que neste filme quis recusar sentimentalidade e narrativa, ficando apenas com algo de muito básico: pessoas de que gostava (os actores) e uma câmara.
Seguiu-se La Belle Personne, o mais recente de Christophe Honoré, de que gostei muito, sobretudo por ser um filme de Inverno tão desordenado. Haverá ainda filmes de João Rosas, Wong Kar Wai e Terence Davies.

Mais ou menos por altura da estreia do filme Conto de Natal, o Instituto Franco-Português vai passar alguns filmes de Arnaud Desplechin que ainda não vi. (Falar de Desplechin como sendo alguém que leu demasiados livros e viu demasiados filmes sem compreender bem nenhum deles parece-me uma excelente descrição; é precisamente por isto que gosto dos filmes dele.)

No Teatro D. Maria está uma peça de Strindberg com uma actriz magnífica como protagonista.

Feira do Livro, Primavera, gelados, jacarandás a florir…


Leituras

Não é que os contos deste livro estejam mal escritos, ou que David Foster Wallace seja um escritor pouco inteligente, mas há muito que não me custava tanto chegar ao fim de um volume com menos de trezentas páginas.
A capa da minha edição é bastante esclarecedora: há animais selvagens que alguns escritores tratam como animais domésticos.
No caso de David Foster Wallace, os animais selvagens são a depressão, conversa de psiquiatra, medicamentos perigosos e outras obsessões, sexuais ou não. Os temas são explorados até à exaustão em círculos concêntricos difíceis de suportar.
Não é impunemente que se trata animais selvagens como animais domésticos.


segunda-feira, 27 de Abril de 2009

O que eu fiz no 25 de Abril


A origem do Palácio de São Bento remonta a 1598, ano em que se iniciou a construção de um mosteiro beneditino que pertenceu aos Monges Negros de Tibães até 1833, conhecido como Mosteiro de São Bento da Saúde.
Após a extinção das ordens religiosas, o mosteiro foi transformado em Palácio das Cortes, por decreto de D. Pedro IV.

O Mosteiro de São Bento teve utilizações diversificadas: foi prisão, hospedaria, sepultura de estranhos, refúgio, depósito de destroços regimentais, academia militar e até patriarcal. Como consequência do sismo de 1755, foi ali instalado provisoriamente o Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

No séc. XX, o edifício sofreu a sua mais profunda remodelação no interior e nas fachadas, intervenção que lhe conferiu a imponência e a dignidade consideradas adequadas ao órgão de soberania que alberga.


[Informação retirada de um dos folhetos oferecidos]


quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Breves de Páscoa

Cinema italiano

Do filme I Vitelloni (Os Inúteis, 1953), de Fellini
Pessoas que durante o último ano me ouviram sempre que eu disse mal de todo o cinema italiano em geral a propósito dos filmes Rocco, de Visconti, e A Noite, de Antonioni (e foram muitas, bem sei), obrigada pela paciência. Continuo a detestar estes dois filmes, mas já consigo admitir que o cinema italiano tem obras-primas.

Proteger o bestseller, coitadinho
Mal estaríamos se os proprietários das livrarias não pudessem seleccionar os livros que eles próprios expõem e vendem. Lendo alguns posts por aí dir-se-ia não só que não querer vender alguns bestsellers numa livraria pequena é uma opção que prejudica gravemente o consumidor, mas também que não somos bombardeados por sucessos de venda em quase todos os estabelecimentos (livrarias ou não) em que ousemos entrar, em quase todos os jornais ou revistas que tentamos folhear. Haja sítios livres de bestsellers! Por mim, valorizo as livrarias que me mostram livros que não encontro noutro lugar.

Especiarias
Mistura de pimentas em grão
Paga-se 87 euros por quilo (esta embalagenzita de 30 gramas custa 2.60 euros ), mas até o aroma é maravilhoso.

Capas

Esta capa tem muito que se lhe diga.



segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Links selvagens e domésticos


Que me lembre, nunca linkei estes blogues, mas há muito que os leio com interesse:

Duas das minhas séries preferidas da blogosfera:
Coisas que melhoram algumas vidas
Livros pedidos, deste blogue: Henrique, volta!

Um blogue que já linkei várias vezes, mas que vale sempre a pena destacar:
Montanha Mágica


sexta-feira, 3 de Abril de 2009

A Mulher Sem Cabeça, de Lucrecia Martel


Gosto imenso da personagem da rapariga com hepatite. A mãe bem tenta mantê-la em casa ou dentro do carro, mas ela anda para ali, amarelada, aparentemente sem ter grande razão de ser.
A dada altura aparece a beber uma limonada. Quando a mãe a chama para se vir embora, pousa o copo com a bebida inacabada no balcão da cozinha e sai da imagem. Pouco depois, aproxima-se um menino que também por ali anda um pouco gratuitamente e bebe desse copo sem ninguém da casa dar por isso.
Assim, em pano de fundo, se processa o contágio.


Desejo de ir embora

«She could feel Mrs Power desire to leave as big and physical as a horse standing beside her on a carpet.»

Do conto «Luck Be a Lady», de Anne Enright (in Yesterday’s Weather, Vintage, p. 258)


Potencialidades ficcionais das enxaquecas

Na antologia de contos de Anne Enright há um texto («Pale Hands I Loved, Beside the Shalimar») com um excelente momento dedicado à enxaqueca: chegada, persistência, desaparecimento («There is something unbelievable about a migraine. You lie there and can’t believe it. You lie there, rigid with unbelief, like an atheist in hell.», p. 185)
Sonho em encontrar uma antologia em que esta condição assuma um papel se não central pelo menos importante. Que me lembre, infelizmente, não me passaram pelas mãos muitos textos com esta característica. Para além do conto de Anne Enright, um conto de Julio Cortázar e o magnífico segundo capítulo de Margarita e o Mestre. Alguém se recorda de outros?


[Este post veio a propósito de um Top Ten de cenas com café.]


Um comentário de Luís Monteiro:
Há outras referências julgo eu. Desde o "basta" do Robert Walser, até ao retrato de um artista de Joyce. Um ou outro livro do Bernhard. E talvez, "Amor e Dinheiro" de Erskine Caldwell. E eventualmente, uma estrofe das elegias de Hölderlin.


Uma sugestão de Simão Pamplona
Entre o conto e a crónica: "In Bed", de Joan Didion (do livro The White Album).






segunda-feira, 30 de Março de 2009

Cecil B. DeMille em Lisboa

Quem, como eu, teve a brilhante ideia de descer a Avenida da Liberdade em direcção ao Chiado no sábado de manhã viu-se envolto numa nuvem densa e rodopiante de sementes de plátano (ou de ulmeiro, não sei bem), e tossiu e espirrou durante pelo menos meia hora, com os olhos a lacrimejar.
Parecia uma praga do Egipto.


Sementes e ilhas


Mais tarde, caso tenha visitado a exposição sobre Darwin, da Gulbenkian, pode ter descoberto também as seguintes instruções num excerto de uma carta enviada por Darwin a um naturalista português:

Nos Açores deve existir um farol e os pássaros têm uma grande tendência para chocar com essas construções. Depois de se recolher as aves mortas, deve-se examinar-lhes as patinhas e retirar os grãos de terra que estas possam guardar. Quando se coloca esta terra numa redoma germinam nela sementes vindas dos outros sítios do mundo por onde os pássaros andaram. É importante analisar as plantas que aí possam crescer.

[Citado de memória]


quinta-feira, 26 de Março de 2009

Preocupaçõezitas de fim-de-semana

Estive a pensar bem e cheguei à conclusão de que nenhum dos realizadores de que gosto incondicionalmente me quereria nos seus filmes.
Por outro lado, tenho de reconhecer com alguma contrariedade que encaixaria na perfeição em alguns filmes de realizadores em relação aos quais tenho sentimentos ambíguos.
Não vou dizer nomes.

Estranhamente ou talvez não, é sempre muito mais difícil gostarmos do que está próximo de nós.
Por outras palavras, existe uma certa distância entre nós e o que amamos.


Algo não domesticado

An unusually handsome lithe young fellow, and an unusually handsome lithe girl; much alike; both very dark, and very rich in colour; she of almost the gipsy type; something untamed about them both; a certain air upon them of hunter and huntress; yet withal a certain air of being the objects of the chase, rather than the followers. Slender, supple, quick of eye and limb; half shy, half defiant; fierce of look; an indefinable kind of pause coming and going on their whole expression, both of face and form, which might be equally likened to the pause before a crouch or a bound.

Encontro esta descrição admirável em The Mystery of Edwin Drood, o romance que Dickens deixou por terminar, assim dando origem a páginas e páginas de especulações intermináveis sobre o destino das suas personagens.


Cinema em estado puro



O Canto dos Pássaros, de Albert Serra


sexta-feira, 20 de Março de 2009

Suspensão de vida

Durante mais de setecentas dias e setecentas noites, entre 2007 e o início de 2009, tive alguns livros permanentemente a meu lado, junto à secretária. Convinha-me tê-los à mão porque os consultava a todos quase diariamente.
Um desses livros tinha na capa uma imagem a preto e branco de um filme a cores de Bresson que não só eu nunca tinha visto como já tinha desesperado de ver.
Vi esse filme ontem. As cores são mesmo muito importantes: o rapaz que aparece na imagem, protagonista do filme, é pintor.
Acho que nem pestanejei nem respirei durante os breves segundos em que a imagem que está na capa do livro apareceu no écran.

O protagonista sai da cama, vai à janela, olha para cima e observa a chuva a deslizar pelo vidro.
Já na cena seguinte, depois de voltar a respirar, juro que os meus últimos dois anos me passaram velozmente à frente dos olhos, como acontece aos afogados.

Figuras femininas em Bresson e exclusão

Perante a protagonista de Quatre nuits d’un rêveur, e pensando nas figuras feminas de outros filmes de Bresson, nomeadamente Procès de Jeanne d’Arc, Pickpocket, Le Diable Probablement, Au hasard Balthasar, Une femme douce ou até Lancelot du Lac, chego a três conclusões não muito interessantes.

Apesar de Bresson ter declarado várias vezes que costumava escolher os actores/modelos através de conversas por telefone por achar que, no cinematógrafo, o som da voz é mais importante do que a aparência, quase todas as mulheres que aparecem em papéis dignos de nota nos filmes do realizador correspondem a um mesmo tipo físico com traços delicados e miudinhos.

O tipo feminino que Bresson gosta de filmar está nos antípodas do de María Casares, actriz com que o realizador teve vários conflitos durante a rodagem de Les Dames du Bois de Boulogne. (Não chego ao ponto de dizer que Bresson procurou a maior distância possível de María Casares em todas as mulheres que filmou – muito embora quase acredite nisso.)

Uma vez que fisicamente estou muito mais próxima de María Casares do que das outras mulheres que o realizador francês filmou depois, fico com a certeza (terrível) de que nem sequer como figurante poderia alguma vez aparecer num filme de Bresson.


Imagem: Isabelle Weingarten, Marthe em Quatre nuits d’un rêveur

segunda-feira, 16 de Março de 2009

Barcas novas (reprise)

A terceira parte do post anterior foi ilustrada com as imagens em falta.

sábado, 14 de Março de 2009

Barcas novas

Três filmes que terminam com passeios de barco (ou planos de lago vazio depois de um passeio de barco):

Céline et Julie vont en bateau, de Jacques Rivette (1974)


Happy-go-lucky, de Mike Leigh (2008)


Passei o Verão em Berlim, de Angela Schanelec (1993)

Agora que já tenho imagens, completo o contexto.



Durante um encontro numa esplanada vazia em frente a um lago com um editor que parecia interessado no que ela tinha escrito, mas afinal decidira não a publicar, a personagem principal (representada pela própria realizadora) sugere que vão ambos dar antes um passeio de barco.


Desejos de fim-de-semana

Um colar de coral vermelho e cerejas cristalizadas.

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Quinta frase, p. 161


Respondendo ao desafio que me foi colocado aqui, cito de The Shadow of the Sun, de A. S. Byatt, que acabei de ler ontem.
Descontextualizada, a quinta frase parece intrigante, mas regras são regras:
«Underwear will do.»

Na introdução explica-se que o livro foi inicialmente publicado com o título Shadow of the Sun. Como era o seu primeiro romance, A. S. Byatt aceitou calmamente a eliminação do artigo «the» do título, proposta por Cecil Day Lewis, da Chatto and Windus.
Mais tarde, porém, quando já era uma escritora consagrada, fez questão de repor o título original, argumentando que «The sun has no shadow, that is the point. / You have to be the sun or nothing.»

O sol de A. S. Byatt neste livro é, segundo ela própria, muito influenciado pelo sol de Van Gogh. É sempre muito interessante reflectir um pouco sobre a influência das artes plásticas na prosa deste escritora. Nunca se trata de escrever sobre imagens, espaços ou personagens vindos directamente da tela dos pintores que a inspiram. Das telas ficam as cores, os movimentos, aquilo da visão de A. S. Byatt que a escritora descobre ter em comum com a visão dos artistas.

Pessoalmente, prefiro os contos e os ensaios desta escritora aos seus romances. Mas este romance é muito bom.

Imagem: Cornfield by Moonlight with the Evening Star, Samuel Palmer, c. 1830, reproduzido na capa da minha edição.


segunda-feira, 9 de Março de 2009

Os filmes de Angela Schanelec

De Tarde

A partir de quinta-feira, até domingo, na Culturgest.


Uma oportunidade única para conhecer melhor o cinema desta realizadora alemã.


Programação: André Dias


sexta-feira, 6 de Março de 2009

Receitas

Nem diários, nem cartas. Os únicos cadernos que a minha avó guardava eram de receitas, algumas apontadas por ela, outras pelo meu avô, que tinha uma caligrafia muito bonita, embora difícil de decifrar.
De certa forma, é possível encontrar nestes cadernos um registo fiel do quotidiano dos meus avós. Não só aquilo que comiam todos os dias, mas também parte do que se passava entre as refeições, sobretudo na vida da minha avó: os períodos de escolha, as compras, a preparação dos pratos, o tempo de espera enquanto a comida estava no forno ou ao lume, os sonhos por entre tudo isto.
Da última vez que visitei a casa dos meus avós, fiquei incomodada com o vazio daquele sítio que costumava estar sempre cheio de gente. A toda a hora me parecia sentir chegar alguém com coisas para contar ou perguntas a fazer. Um cão ou um gato dos muitos que por lá foram morando.
Se ao menos me tivesse lembrado dos livros de receitas.


terça-feira, 3 de Março de 2009

As minhas aventuras com Peter Carey

Enquanto Jack Maggs é um dos melhores, mais bem pensados, mais bem escritos, romances que li nos últimos tempos, Theft, a Love Story é dos mais inúteis e dispensáveis. Tentar escrever à Faulkner, com uns laivos de John Banville à mistura, dá nisto, ainda que se escolha um tema tão interessante como as falsificações em arte.
A questão das influências, mal ou bem digeridas, explícitas ou implícitas, tem muito que se lhe diga.
As minhas aventuras com Peter Carey ainda não vão ficar por aqui, apesar de tudo. Há um Oscar and Lucinda à minha espera na estante. Vai é continuar à espera durante algum tempo.


Anatomia, Botânica





Em caso de incêndio, as pinhas são perigosas, pois explodem, projectando faúlhas que podem ser lançadas a quilómetros de distância devido ao vento, levando o fogo para mais longe, e em várias direcções.

quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Segredos de um bestseller

Interviewer: What do you think we’re afraid of?

Stephen King: I don’t think there’s anything that I’m not afraid of, on some level. But if you mean, What are we afraid of, as humans? Chaos. The outsider. We’re afraid of change. We’re afraid of disruption, and that is what I’m interested in.



Está-me a apetecer uma maratona cinematográfica com filmes baseados em livros de Stephen King.


Uma questão de casting


Encontro uma das opções de casting mais interessantes que me lembro de ter visto em cinema nos últimos tempos na escolha de Kathy Bates para encarnar o papel de Mrs. Helen Givings no filme Revolutionary Road, de Sam Mendes.
Kathy Bates - que em 1991 recebeu o Óscar e o Globo de Ouro para melhor actriz num papel principal enquanto Annie Wilkes, a inesquecível protagonista do filme Misery, realizado por Rob Reiner a partir do romance de Stephen King em que uma fã psicopata sequestra o escritor preferido para o obrigar a escrever aquilo que ela quer - desempenha, em Revolutionary Road, o papel de uma vendedora imobiliária com um discurso pejado dos lugares-comuns habituais ao contexto social que marca o filme.

No filme, a inadequação à realidade do discurso e do comportamento da vendedora imobiliária de Revolutionary Road está evidente para quem a quiser perceber (na personagem do filho, doutorado em matemática mas a receber tratamento psiquiátrico relacionado com electrochoques, no carácter apagado e passivo do marido, no modo como o que percebemos daquele universo parece escapar a tudo o que ela diz sobre ele), mas a simples presença física de Kathy Bates contribui para acentuar o quanto há de perturbador numa personagem aparentemente tão convencional e tão integrada.

Vale sempre a pena chamar a atenção para estas personagens que persistem em encarnar e defender um modo de vida ideal e desajustado, apesar de quase tudo o que se passa em torno delas indiciar que estão erradas. É importante reflectir sobre o papel delas, mesmo quando parecem secundárias. Quem estiver atento verá que é ali que reside o rosto mais puro do terror.


segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Jack Maggs, de Peter Carey

A propósito deste livro, constato dois fenómenos interessantes .

Apesar de ter personagens que vêm do romance Great Expectations, de Dickens, apesar de a narrativa se situar na cidade e no tempo de Dickens, apesar de incluir uma personagem (o escritor Tobias Oates) que partilha elementos biográficos com Dickens, em Jack Maggs a referência a Dickens acaba por funcionar de modo deceptivo: encontro mais Charles Dickens nos primeiros romances de Paul Auster (principalmente nas personagens que andam à deriva pelo mundo, lutando pela sobrevivência física) do que em Peter Carey.
Não se trata de uma constatação negativa, embora, por si só, também não seja necessariamente positiva. Não haverá muitos escritores que se confrontem com os universos das suas supostas influências e sobrevivam incólumes ao embate. Interessa, no entanto, averiguar se conseguem ganhar alguma coisa com isso. (Terei de ler mais livros de Peter Carey para perceber.)

Depois, quando leio este livro acontece-me uma coisa estranha. Não tenho por hábito imaginar actores dando corpo às personagens dos romances, mas aqui vejo sempre Harvey Keitel quando vejo Jack Maggs. Terá Peter Carey concebido o protagonista a partir de Harvey Keitel, imaginando que o actor poderia um dia ser o protagonista de um filme realizado a partir do livro? Ou não passará tudo isto de uma fantasia minha?


Colecção de mãos

«It had always been Tobias method to approach his subject by way of the body. When he’d first set himself the task of writing about Jack Maggs, he had first produced a short essay on his hands, pondering not merely the fate of the hidden tendons, the bones, the phalanges, the intercarpals which would one day be liberated by the worms, but also their history: what other hands they had caressed, what lives they had taken in anger.»

Jack Maggs, de Peter Carey, Faber and Faber, p. 303

segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Without a trace

Sempre que vejo na televisão notícias sobre portugueses desaparecidos no estrangeiro, penso na facilidade com que eles podiam ser eu.
Comigo desaparecida sem rasto, vejo as pessoas que gostam de mim a ser entrevistadas, o ar perplexo delas perante factos aparentemente decisivos para a investigação que a polícia tivesse descoberto depois de esmiuçar a minha a vida a pente fino.
Perante algumas coisas que eu própria já esqueci, as pessoas que gostam de mim estariam mentalmente a reorganizar tudo o que pensavam saber sobre quem eu era. Uma ou outra pessoa diria com certeza, como às vezes se ouve, mesmo sem se ter desaparecido: ‘Não sabia, não. Era uma pessoa reservada. É difícil conhecer realmente uma pessoa assim.’
Desaparecer é, em si, um verbo muito ambíguo. Nada desaparece de facto.
Os desaparecidos podem estar mortos ou vivos. Quando muito, nos casos mais graves, permanecem em dispersão pelo mundo, o corpo desmembrado e em transformação.
A alguns desaparecidos acontece simplesmente esquecerem-se de quem eram ou do destino para o qual seguiam. Sem essa memória é-lhes difícil retomar a existência normal, pelo que ficam onde nem eles conseguem ao certo identificar.
Aos outros sucede apenas decidirem mudar de vida e, sem aviso, deixarem tudo para trás. Estes, embora só esporadicamente e com relutância confessem de onde vieram, e no momento não desejem explicar para onde pensam que vão, se quisessem, podiam revelar onde estão.

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Um caso linguístico

O uso da expressão «desmancho» para referir «aborto espontâneo» está documentado em dicionários e em textos dedicados ao assunto. Em caso de dúvida, ver, por exemplo, as acepções 3 e 4 da entrada no Moderno Dicionário da Língua Portuguesa da Michaelis, ou consultar páginas como as seguintes: I, II, III).


terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Suspeitas


Para quem não tenha reparado, o filme que duas personagens (Vicky/Rebecca Hall e o colega da aula de castelhano) em Vicky Cristina Barcelona vão ver é Shadow of a Doubt, de Alfred Hitchcock. A cena que aparece diz respeito ao momento em que o tio (Charlie Oakley/Joseph Cotten) tenta matar a sobrinha (Charlie Newton/Teresa Wright) no comboio, de modo a impedi-la de o desmascarar como assassino.
Quando o BFI realizou um inquérito a vários realizadores, pedindo-lhes que falassem da importância e da influência de Hitchcock nas obras de cada um, Woody Allen manifestou predilecção precisamente pelo filme que agora usa neste Vicky Cristina Barcelona.

Por mim, acho que desde Deconstructing Harry não gostava tanto de um filme de Woody Allen. Mas, claro, tenho um fraco por contos morais em que os protagonistas percebem que afinal desejam exactamente o oposto daquilo que julgavam desejar, e achei verdadeiramente magníficas quer Rebecca Hall, quer a saturnina personagem que ela representa.


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